Na Colômbia, a Lei 2466, aprovada em junho de 2025, abriu caminho para mudanças no trabalho por plataformas. Mas a regulamentação ainda não foi concluída, e isso mantém trabalhadores e trabalhadoras em um cenário de incerteza. Enquanto o governo, os sindicatos e as empresas seguem em negociação, pontos centrais da lei continuam sem definição.
Um dos temas mais delicados é a definição do vínculo de trabalho. Afinal, quando existe emprego, dependência e subordinação? Para o sindicato nacional de trabalhadores de plataformas, essa distinção precisa ser clarificada para garantir direitos. Já as empresas defendem que essa definição não é necessária, o que ajuda a manter o impasse.
Nos últimos meses, um grupo técnico reuniu representantes dos Ministérios do Trabalho, das TIC e da Saúde, além de empresas de plataforma e sindicatos, para discutir a aplicação da lei. Houve algum avanço em partes do texto, mas o nó principal segue sendo o mesmo: como enquadrar legalmente quem trabalha por aplicativo.
Mesmo nesse cenário de espera, houve uma conquista importante. Em fevereiro de 2026, o sindicato de trabalhadores de plataformas fechou um acordo com a Rappi, principal empresa de entregas do país. O entendimento surgiu após uma decisão judicial que ordenou que a empresa não violasse o direito ao devido processo, depois que a conta de um entregador foi bloqueada sem justificativa adequada.
O acordo prevê pagamento mínimo de 3.050 pesos por entrega concluída e uma tarifa garantida de 640 pesos por quilômetro a partir do quarto quilômetro. Também inclui passos para ampliar a cobertura de segurança social para cerca de 120 mil entregadores. Em troca, o sindicato se comprometeu a colaborar com a empresa no combate a fraudes e na melhoria da operação da plataforma.
A proteção social continua sendo um dos pontos mais críticos da lei. O artigo 27 determina que as plataformas devem contribuir com 60% para saúde e pensão, enquanto os trabalhadores ficam com 40%. As empresas também devem assumir integralmente o seguro de riscos ocupacionais.
Na prática, porém, essas regras ainda não foram implementadas, e o acesso à cobertura segue muito limitado.
Segundo o sindicato, em cada 100 trabalhadores, apenas cerca de um consegue acessar seguro — e, muitas vezes, só em caso de morte. Além disso, faltam direitos básicos como licença médica remunerada, licença-maternidade ou paternidade e cobertura ampla de saúde. Isso significa que qualquer pausa por doença pode virar perda imediata de renda.
As condições de trabalho também seguem marcadas por jornadas longas e renda instável. De acordo com dados citados nas publicações do Wage Indicator (veja abaixo, em inglês), 90% dos trabalhadores ficam conectados por cerca de 14 horas por dia, e o trabalho se estende pelos sete dias da semana. Mesmo com esse volume de horas, não há bônus, férias pagas nem estabilidade.
Em 2026, o salário mínimo na Colômbia foi fixado em 2.000.000 de pesos. Já um entregador pode ganhar em média cerca de 3.000.000 de pesos por mês, mas depois de despesas como combustível, manutenção do veículo, pacote de dados e equipamentos, a renda líquida cai para aproximadamente 1.700.000 pesos.
Esse cenário ajuda a mostrar que a regulamentação não é só um debate jurídico. Ela vai definir se o trabalho por plataformas será reconhecido com direitos reais ou seguirá baseado em insegurança e baixos rendimentos. Com as eleições presidenciais marcadas para o fim de maio, o desfecho político também pode influenciar diretamente a forma como a lei será aplicada.
Para as trabalhadoras domésticas, essa discussão também é importante. Ela revela quem entra e quem fica fora da proteção trabalhista.
A reforma dá mais visibilidade ao trabalho por aplicativos de entrega e transporte, mas o trabalho doméstico continua historicamente marginalizado nesse debate, apesar de sua presença central na vida de milhões de mulheres na América Latina.