Convenção 193: ratificar é transformar direitos em realidade

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A Convenção nº 193 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) é a primeira norma internacional voltada ao trabalho decente na economia de plataformas. Ela reconhece que aplicativos e sites não servem apenas para conectar pessoas: também organizam, controlam e avaliam o trabalho.

Para trabalhadoras domésticas, babás e cuidadoras que encontram serviços por aplicativos, a Convenção é especialmente importante. O trabalho em plataformas não se limita a entregas e transporte: ele também está presente no cuidado e no trabalho doméstico.

O que é uma plataforma?

Plataformas digitais são aplicativos ou sites que conectam quem oferece trabalho a quem busca um serviço. Mas elas podem fazer muito mais: definir preços, estabelecer regras, distribuir tarefas, usar avaliações e até bloquear contas.

Quando isso acontece, a plataforma pode exercer controle sobre a rotina de trabalho — mesmo chamando a pessoa de “autônoma”, “parceira” ou “prestadora de serviços”.

O trabalho vale mais que o contrato

Um dos pontos centrais da Convenção 193 é que a classificação do vínculo deve considerar os fatos do trabalho, e não apenas o nome dado no contrato. Em outras palavras: importa saber quem define as regras, controla o acesso ao trabalho e pode aplicar punições.

Isso enfrenta uma prática comum das empresas de plataforma: apresentar trabalhadoras e trabalhadores como independentes para evitar responsabilidades trabalhistas, como proteção social, remuneração justa e direito à organização coletiva.

Se o algoritmo organiza, controla e pune, ele não é apenas uma ferramenta: pode funcionar como uma forma de chefia.

Uma conquista construída com luta

A negociação da Convenção foi difícil. “Trabalho em plataformas” reúne atividades muito diferentes, como transporte, entregas, cuidado, trabalho doméstico, rotulagem de dados e moderação de conteúdo. Criar uma norma que alcançasse essa diversidade sem ignorar as particularidades de cada setor foi um grande desafio.

Também houve disputa política. Sindicatos, organizações de trabalhadoras e trabalhadores e entidades da sociedade civil defenderam direitos e proteção. Parte do setor empresarial insistiu na ideia de que quem trabalha por aplicativo seria apenas contratante independente.

A Convenção foi adotada, mas a recomendação complementar não foi concluída. Por isso, a resolução aprovada junto com a norma reforça a necessidade de ratificação e implementação pelos países.

Por que ratificar?

A adoção da Convenção pela OIT é um passo histórico, mas os direitos não passam a valer automaticamente em cada país. Para que ela tenha força no Brasil e em outros países da América Latina, os Estados precisam ratificá-la e adequar leis, políticas públicas e mecanismos de fiscalização aos seus parâmetros.

Depois da ratificação, os governos também devem informar à OIT os avanços realizados. Isso pode abrir caminho para leis mais protetivas, fiscalização das plataformas e medidas que garantam direitos na prática.

O que está em jogo

A Convenção 193 traz bases importantes para enfrentar problemas comuns no trabalho por aplicativos:

  • Reconhecimento de direitos independentemente do rótulo dado no contrato.
  • Critérios baseados na realidade do trabalho para definir o vínculo.
  • Transparência sobre sistemas automatizados e decisões tomadas por algoritmos.
  • Proteção contra discriminação, inclusive em decisões automatizadas.
  • Direito à organização sindical e à negociação coletiva.
  • Possibilidade de questionar bloqueios, desativações e outras decisões que afetem o acesso ao trabalho.

Cuidado e trabalho doméstico contam

Quando se fala em plataformas, a imagem mais comum é a de entregadores e motoristas. Mas muitas mulheres também trabalham por meio de aplicativos e sites, oferecendo limpeza, cuidados, apoio a pessoas idosas, trabalho doméstico e outros serviços.

Essas atividades costumam ser menos visíveis, mais precarizadas e marcadas por desigualdades de gênero. Por isso, ratificar a Convenção 193 também significa reconhecer que o cuidado e o trabalho doméstico mediados por plataformas precisam estar no centro do debate sobre direitos.

A luta continua

A ratificação é o próximo passo e precisa vir acompanhada de participação das trabalhadoras, sindicatos, associações e coletivos. Nenhuma norma se aplica sozinha: é a organização coletiva que pode transformar um compromisso internacional em proteção concreta no dia a dia.

Ratificar a Convenção 193 é afirmar que tecnologia não pode ser usada para esconder relações de trabalho, retirar direitos ou tornar invisível quem cuida.

Aprenda mais

OIT | Como a nova Convenção nº 193 promoverá o trabalho decente na economia de plataformas?

BotPopuli | Won in the Streets, Signed in Geneva A Latin American Reading of the Platform Work Convention 193 (em inglês)

Latam Gremial | Trabajo en plataformas: advierten que la implementación del nuevo Convenio será la próxima gran disputa (em espanhol)

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